R.I.P. Lou Reed


Ontem Lou Reed, aos 71 anos, partiu dessa pra melhor. Vi a notícia pelo facebook, e demorou um pouco pra assimilar, pois o Lou era um daqueles caras que a gente achava que iriam viver pra sempre, assim como o Iggy Pop, Lemmy ou Keith Richards. O baque foi grande, e só agora consigui assimilar e aceitar o fato. Falar da obra e da influência de Lou Reed na música é chover no molhado. De sua genialidade, como músico e compositor, idem. Perda inestimável.

Não vou me alongar muito, palavras não tem relevância agora. Deixo aqui apenas a minha homenagem. Que cada vez que sua música toque, onde quer que for, leve mais um ou outro para o "wild side".

R.I.P.









Shade of Mankind is upon our graves! - Entrevista com Roderick Deimos


Formada em 2011 por Roderick Deimos como uma one man band de crust/grind, a Shade of Mankind é uma das bandas mais brutais da atual cena porto alegrense. Desde o EP "Fallout", lançado no final de 2011, Deimos mostrou que veio para a cena para fazer a diferença. O dito EP, totalmente tosco, sujo e pesado, tem um ar sombrio, apocalíptico, puta climão de fim do mundo. Uma espécie de Doom pós-apocalipse com algumas pitadas de Ministry (talvez por conta do "digi-beat", já que foi gravado com bateria programada) e letras totalmente negativas e "na cara", com uma gravação totalmente escrota, mas de alto nível, considerando as condições em que foi gravada (no Audacity e com um mic de PC dos mais fuleiros). Crust!

No início de 2012, a Shade of Mankind deixou de ser um projeto e virou banda, e com isso foi adicionando muito mais influências. O crust e o grind se misturam agora com elementos de death e black metal, hardcore, sludge e tudo que há de desgracento, extremo e podre na música. A banda toca na segunda edição da Bad Music Sessions, junto com os veteranos da Morterix e a Extr Sicks, que estará fazendo seu show de estreia. Fiz uma entrevista com Roderick Deimos, onde falamos um pouco sobre a Shade of Mankind, uma banda que tem muito à dizer e que está na cena para fazer a diferença, para fazer com que o hardcore e o metal voltem a ser uma ameaça.


A Shade of Mankind é uma banda que tem influências diversas, indo do black metal até o crust, passando pelo grind, death, hardcore e até mesmo pelo punk japonês e o metalcore de bandas do H8000. De onde partem todas essas influências? Cite as bandas que você considera uma referência para o som da Shade of Mankind.

Deimos - Bem, sempre fui uma pessoa que curtiu música dos mais variados gêneros e tô SEMPRE querendo botar algum detalhe diferente ou referencial em minhas músicas. Até porque o próprio conceito da Shade Of Mankind é criar o som mais agressivo, catártico e perturbador possível, logo misturar gêneros com essas características é inevitável, não podemos ser impactantes se ficarmos nos baseando em fórmulas prontas.

Quanto a bandas que nos são referência, cada membro que fez parte disso tem sua gama de influências, em geral temos algumas em comum, mas as influências principais de cada indivíduo são mais fluentes na música do que uma coisa mais geral.

Mas citando nomes, temos um baterista muito focado no Death Metal (Cannibal Corpse, Suffocation, Hate Eternal, Nile, Severe Torture, Krisiun), um baixista mais voltado ao thrash, crossover e metal old school (Celtic Frost, Exodus, Demolition Hammer,Venom, Ratos de Porão, Overkill), um duo de guitarras com influencias mais variadas e com um pé no Black metal (Gorgoroth, Dissection, Watain) e até mesmo o Death Sueco (Grave, Entombed) e no meu caso, me concentro mais na linha do crust, grind e essa turma do hardcore que procura fazer algo mais diferenciado, sombrio e pesado (Integrity, Cursed, Unruh, Catharsis, Koreisch), até me inspiro em bandas com performances agressivas como GISM, Kickback, Gehenna e Hoax. O leque de influências é muito grande...

A banda começou como uma one man band crust em 2011, você gravava tudo em casa e usava bateria programada. Mesmo gravado de forma precária, o primeiro EP da banda, "Fallout", teve boa repercursão e é digno de elogios, levando em conta as condições em que o "Fallout" foi gravado. Muito ouço falar que a produção tem um quê de Ministry e metal industrial, isso foi proposital? Fale um pouco sobre a gravação desse EP.

Deimos - Bem, a gravação do EP foi algo catártico pra mim, saí de uma banda na qual estava bem descontente com a orientação sonora que ia, logo queria fazer o som podre e violento que sempre quis fazer, mas tinha um problema: eu não tocava porra nenhuma e não conhecia ninguém que fizesse esse tipo de música. Porém a vontade foi maior e aprendi esses esquemas de gravar em casa e comecei a gravar as músicas, peguei (e depois comprei) o baixo de um amigo, vi tutoriais, pedi ajuda a pessoas que já faziam esse tipo de gravação em casa.

Sobre a influência de Ministry, sempre curti a banda, porém em momento algum pensei neles quando compus o álbum, na época estava bem interessado no crust do Doom e Skitsystem e o grind do Nasum e Terrorizer, talvez tenha sido influência indireta na produção do álbum, até por causa dos efeitos de vocais que usei, mas de qualquer jeito esses comentários podem ser considerados grandes elogios.




Como e quando a Shade of Mankind passou de ser um projeto one man band para ser uma banda propriamente dita? Os outros membros da Shade of Mankind tem projetos paralelos? 

Deimos - Desde que criei o projeto, já tinha essa vontade de fazer o negócio ser real e envolver outras pessoas, pelo menos para shows ao vivo. No começo eu convidei amigos para tocar em shows e depois vendo a formação, conforme fui criando afinidades com alguns membros, comecei a pensar a tornar isso uma banda, porém tive vários problemas de formação (da formação original, só tem o baterista) e acho que agora conseguimos estabilizá-la. Os ensaios e resultados dos mesmos tem me agradado bastante e estamos ansiosos (eu pelo menos sim) para demonstrá-los ao nosso público/vítimas. 

De projetos paralelos ativos, temos membros participando da Viruskorrosivus e I Am Nihil, por exemplo, mas os outros membros estão formando suas outras bandas paralelas e estão desenvolvendo elas conforme o tempo passa, alguns deles tiveram participação em outras bandas (Ark Six, My Own Monster e Bloody Violence, por exemplo), o engraçado e curioso é que no fim todos estão focados na Shade mesmo, haha.

Atualmente a banda está gravando o seu debut "We Are the Plague". Como está sendo a gravação desse disco? Há alguma previsão de lançamento, de como será lançado?

Deimos - A gravação do debut está sendo demorada, porém gratificante. Tivemos problemas técnicos, a própria questão de não estabilizar a formação e etc. Porém agora estamos finalizando as gravações de alguns detalhes extras de guitarras, depois só falta as participações especiais que marcamos. Sobre a previsão de lançamento, não temos uma data específica ainda, porém nossa meta é deixarmos ele para streaming em dezembro desse ano. O lançamento físico vai ser depois pois os planos de lançamento dele serão um pouco mais ambiciosos e complexos, logo não garantiremos isso tão cedo.


Além do som, também chama atenção a estética e temática da banda. Fale um pouco sobre isso.

Deimos - Sempre tive uma curiosidade e gosto por bandas com esse apelo “além da música”, a questão de estética e temática. O que a banda demonstra é algo complexo na verdade, falamos de individualidade e a decadência do ser humano civilizado e seus dogmas, de como as coisas não são tão “preto e branco” e os paradoxos das dicotomias. Esse tipo de pensamento e atitude já foi demonstrado em vários formatos, não se há um nome específico pra isso, mas gosto de denominá-lo “rebelião psíquica”.

Somos indivíduos cansados dos grupos e dogmas que nos cercam e corroem aqueles a nossa volta, o que fazemos é uma catarse e desconstrução dessas mitologias que a própria civilização criou sobre seus deuses e demônios. Não estamos aqui para mostrar caminhos ou levantar bandeiras, já estamos traçando o nosso caminho e queimando todas as bandeiras que tentarem usar para nos representarmos, sabemos quem nós somos. As pessoas temem o caos pois elas querem o controle total, não querem se adaptar, querem viver no conforto de suas ordens e ideais prontos, queremos causar nelas esse desconforto, o desconforto do questionamento e da não conformidade.

A natureza é caótica, sempre em mudança constante, o homem que criou essa falsa idéia de tradição, se pararmos pra ver bem mesmo, as únicas tradições que a humanidade sempre manteve foram a depravação, a violência e o catarse. Porém muitos tem medo de abraçar as feras (alguns também chamam instinto) que se habitam dentro de nós, é uma questão de conciliação com eles, não de domínio.

Não é algo de chutar latas nas ruas e lutar contra sistemas, pregar revoluções, mas sim uma questão de sobrevivência psíquica diante o controle e amarras do “bem comum”. É sobre saber o que acontece na sua mente e como você lida com isso e seus instintos, meio como se fosse uma anarquia psicológica e espiritual.



O que vocês acham da sua cena local? Recomende algumas bandas locais que vocês apreciem.

Deimos - Essa questão de cena é algo engraçado, talvez realmente tem a ver com a cena teatral, já que os pregadores da mesma escrevem ensaios exuberantes falando e culpando si mesmos na terceira pessoa do plural. Um simulacro de consciências pesadas que querem culpar alguém por “eu não atingir o sucesso/aceitação que esperava”, no momento que estamos num meio como o hardcore e metal, formado por supostos párias sociais, acho que a aceitação de uma audiência deveria ser a menor e mais inexistente das preocupações, vai entender.

Um bom exemplo de como isso é paradoxal, lembro de certas pessoas que torciam o nariz para mim por eu fazer tudo por mim mesmo e não fazer um som de acordo com o que a tal da “cena” fazia, logo era deixado de lado. Porém em uma das bandas que toco paralelamente, vejo esses mesmos que xingavam agora me elogiar pois estava tocando com alguém que era de uma banda “histórica” da tal cena, como se eu fosse contratado ou abençoado por ele.

Independente dessa palhaçada e falácia que vemos de alguma parte, acho que temos grupos interessantes e formados de pessoas que estão cansados dessa ladainha. Enfim, recomendações são das mais variadas: bandas como Sistema de Mentiras, Change Your Life, Morterix, Solomon Death, Hangovers, In Torment, Evil Emperor, Natural Chaos, Extr Sicks, Imorale, Living In Hell, Além Do Fim, Ornitorrincos, Bad Taste, Rotten Filthy, entre outros grupos que estão que fazem um som mais único e não tendem a repetir fórmulas rechaçadas dessas tais tendências. 


Recomende algum som maroto pra gurizada ouvir.

Há tantos, acho que fica melhor de cada membro do grupo fazer o seu aqui:

- Deimos: Primeiramente os colegas audioterroristas da Fit Of Rage, Martyr’s Tongue, VVeltschmerz, Malware, Albura, Ad Dajjal, Pesimista, Garden Of Stained Graves , Column Of Heaven, Horders, Heksed, VVlad, Cape Of Bats, Withdrawal, Godbreaker, Altar, Corpo Morto, Koreisch, Unruh, Bloodlet, Catharsis, Integrity, Gehenna, Ilsa, Seven Sisters Of Sleep, Rot In Hell, Vegas, O Cúmplice, Deaf Kids, Life Is A Lie, God Demise, Teenage Suicide, Shit Heroes entre tantas outras que poderiam preencher uma lista telefônica.

- Zoltar: Prophecy (Brasil), Korzus, Xanthochroid, Beyond Fear, Armed For Apocalypse, While She Sleeps, Sybreed, Hacktivist, Deadlock, Neurotech, Satyricon, Gojira, Ego Fall, Psyclon Nine, The Browning, Rise of the Northstar, Dalriada, Kontrust, Chthonic, Phinehas, Enter Shikari, Yaksa, Myrath, The Acacia Strain, In Extremo, Anime Dannate (não tem nada a ver com mangá), Dreamshade, Trash Talk, Tracedawn, Drygva, Gorgoroth, The Ocean, Woods of Ypres, Fellsilent, Claustrofobia, Ego Fall, Katatonia, Carach Angren, The Agonist, Sylosis.

- Schizo: D.R.I., Exodus, Demolition Hammer, At War, Motörhead.

- Yautja: Behemoth, Belphegor, Hate Eternal, Nile, Ayin, Nephasth, The Ordher, Krisiun, Brujeria, Escarnium, RxCxEx, Jig-Ai, Cerebral Bore, Defeated Sanity, Dawn Of Demise, Cryptopsy, Claustrofobia, Cattle Decapitation, Devourment, Dying Fetus, Dyscarnate, Exhumed, Impaled, Carcass, F.K.U., Gorerotted, Macabre, Napalm Death, Origin, The Faceless, Revocation, Soreption, Vomitory, Deicide, Marduk, Aeon, Asesino, Birdflesh.

- Twiggy: Além das bandas locais e influências já citadas, aqui vão outras como The Faceless, Carnifex, Fleshgod Apocalypse, Aborted, Dissection, Blood Red Throne, Carcass, Cattle Decapitation, The Black Coffins, Watain, Immolation, Murder Construct, Ragnarok, Setherial, Fallujah, Incantation, Impaled Nazarene, Misery Index, 1349, Dark Funeral, Marduk, Goatwhore, God Seed, Tsjuder, Carpathian Forest, Broken Hope, Coldworker, Cryptopsy, Desecrated Sphere, Haemorrhage, Hour Of Penance, Lacerated and Carbonized, Kraanium, Pathology, Pig Destroyer, Septicflesh, Spawn of Possesion, The Black Dahlia Murder, Avulsed, The Bridal Procession, The Modern Age Slavery, Torture Killer, Vomitory, Waking the Cadaver, entre muitas mais que poderia ficar falando por horas e horas e horas...



(filmagem por Mekaniquis)

Considerações finais: mande beijos para a mãe ou todos tomar nas pregas. Espaço livre!

Deimos - Aos que apóiam nossa música, agradecemos. Aos que sentem repulsa por ela, agradecemos mais ainda, pois criamos ela para nós, não para vocês.


Shade of Mankind é:
Deimos - Vocal
Zoltar - Guitarra solo
Twiggy - Guitarra base
Schizo - Baixo
Yautja - Bateria e backin' vocals

Bandcamp
Página no facebook

I am the cosmos...


Um tempo atrás, fiz aqui um post sobre o Big Star, de certeza uma das minhas bandas favoritas dos anos 70. O primeiro disco do Big Star é uma das mais belas obras musicais que já ouvi, e mesmo os outros discos da banda sendo muito bons, o "#1 Record" faz com que pareçam medíocres. Grande parte da genialidade do primeiro disco se dá por conta da união do Alex Chilton com esse cara do post de hoje, o Chris Bell.

Alex Chilton e Chris Bell tinham tudo para ser a mais perfeita e criativa dupla da história do rock, e a prova disso está não só no primeiro disco do Big Star, mas também nas contribuições que Bell deixou para o segundo disco deles, o "Radio City", por sinal as melhores do disco, como "O My Soul", "Back of a Car" e "September Gurls". Infelizmente, diversas brigas e desentendimentos com Chilton, abuso de drogas e problemas de depressão, fizeram com que Chris Bell se afastasse do Big Star.

Bell ficou um tempo afastado da música e decidiu voltar a compor em carreira solo. Começou a ensair e gravar demos no estúdio Ardent, onde gravou e ensaiou com sua antiga banda. Como contribuintes de seu projeto solo, chamou alguns velhos amigos, inclusive Alex Chilton, com quem já havia se reconciliado. Desse reencontro saiu a pérola "You and Your Sister", lado B do single "I Am The Cosmos", único material solo de Chilton que saiu enquanto vivo, em 1978.



Esse single, raríssimo hoje em dia, e um dos objetos mais cobiçados pelos colecionadores e fãs do Big Star, foi lançado pela Car Records, por quem Bell lançaria seu primeiro disco, chamado "I Am The Cosmos". Infelizmente, Bell morreu no mesmo ano que o disco seria lançado, em 1978, num acidente de carro, aos 27 anos (tornando-se assim um dos obscuros membros do "clube dos 27"). O disco permaneceu engavetado até 1992, quand foi lançado em CD pela Rykodisc, passados 14 anos de sua morte.



E o que falar dessa pérola, lançada postumamente? Simplesmente GENIAL. Não desmerecendo Chilton, que também é um ótimo músico e muito criativo, mas parece que boa parte da genialidade do Big Star em seu primeiro disco se devia ao Chris Bell. Mas, boa parte mesmo. Esse disco solo dele é comparável ao primeiro do Big Star. Com ótimas canções, incluindo baladas poderosas como a faixa-título, "Your And Your Sister", "Speed of Sound" e canções matadoras como "Fight at the Table", "I Got Kind Lost" e "I Don't Know", todas elas em nenhum momento negando as influências de Bell, calcadas principalmente na british invasion dos anos 60, porém apresentadas numa versão muito mais poderosa, numa versão de pau duro, um powerpop impecável, perfeito. Disco obrigatório, sobretudo para fãs de Big Star, que não podem deixar essa pérola passar.


Baixe essa maravilha aqui.

Selos independentes, parte III - Good Vibrations Records


Voltando à série de postagens sobre selos independentes, desta vez falaremos sobre a Good Vibrations Records, um dos selos mais importantes da história do punk rock. O selo ficou muito conhecido nos anos 90 após Kurt Cobain, quando passou por Belfast e ficou hospitalizado, proferiu as seguintes palavras: "Eu não ligo se morrer aqui, porque é o lar da Good Vibrations Records". E claro, além disso, foi um selo essencial naqueles primeiros dias do punk rock na Irlanda do Norte. Muitas vezes, a história do selo se confunde com os primórdios do punk rock naquele país.

Para falar da história do punk naquele país, é um tanto quanto impossível não falar do contexto político e social da época. Belfast, nos anos 70, era uma das cidades mais violentas do mundo. A Irlanda do Norte sofria com uma onda de violência por motivos políticos e divergências religiosas que dividem o país até os dias de hoje, embora atualmente a situação esteja muito mais tranquila, após muitas mortes sem sentido, mas não totalmente resolvida. Para muitos jovens da época, que viviam na pobreza, sem a menor perspectiva de futuro, entrar em grupos paramilitares como o IRA era o caminho natural e morrer era muito fácil. O punk surgiu na Irlanda do Norte ao mesmo tempo que surgiu na Inglaterra, por conta da proximidade geográfica, e lá, levando em conta todos os aspectos políticos e sociais, "no future" para os jovens passava a ser muito mais do que o verso de uma música dos Sex Pistols, que acabaram se identificando com toda a fúria daquele novo movimento social e musical que estava surgindo, onde acharam o melhor meio de se expressar. Naturalmente, surgiram inúmeras bandas punks naquele país, seguindo a filosofia do faça você mesmo, de que qualquer um com instrumentos baratos pode tocar em sua garagem e se expressar através da música. Uma das principais características do punk irlandês nos seus primórdios, em 1976 e 1977, é que as bandas faziam um som bastante melódico em relação ao punk inglês, com muita influência powerpop e bubblegum, só que é claro, muito mais tosco.

As primeiras bandas punks norte-irlandesas foram o Rudi, The Undertones e The Outcasts, além de outras menos conhecidas como DC9 e Starjets, todas formadas entre 75 e 77. Ainda são de lá as clássicas Boomtown Rats e Stiff Little Fingers, mas que logo de início já se mudaram para a Inglaterra, vendo que em seu país teriam bem pouca chance de gravar alguma coisa. E é aí que entra a Good Vibrations Records e nosso herói Terri Hooley.


Hooley já era dono de uma pequena loja de discos em Belfast que se chamava Good Vibrations (homenagem ao som do Beach Boys de mesmo nome), simpatizou com o punk após ver o Rudi e o Outcasts ao vivo. Conversou com as bandas e resolveu dar uma força para eles conseguirem shows. Em certa ocasião, Hooley falou como as coisas eram o tanto quanto difíceis para as bandas punks na época: "Ninguém queria gigs punk naquela época e a única maneira de conseguirmos fazer um era ligar para os locais e dizer que estava organizando uma festa de 21 anos de sua filha e que tocariam algumas bandas. Quando eles descobriam que na verdade era uma gig punk, era tarde demais...".

Depois de organizar uns shows de punk rock que sempre acabaram em confusão, com a polícia mandando todo mundo pra casa na base da porrada (sério? conte-me mais...), decidiu que era hora de botar mais lenha na fogueira. Vendo que a possibilidade de alguma daquelas bandas gravarem por alguma major era praticamente zero, decidiu criar o seu selo, a Good Vibrations Records. O ano era 1977 e o punk já era um verdadeiro fenômeno na Inglaterra e na Europa inteira. O Clash já tinha tocado em Belfast e o Stiff Little Fingers já lançara seu primeiro single, "Alternative Ulster". O primeiro compacto da Good Vibrations foi o clássico "Big Time/Number One" do Rudi, que saiu em 1978.



Apesar de ter mandado diversas cópias para diversas rádios e revistas do Reino Unido, o compacto da banda teve repercursão quase nula. Logo depois, a Good Vibrations lançou os singles do Outcasts e do Victm, e em setembro, foi lançado então o maior clássico do selo: o EP "Teenage Kicks" do Undertones. A princípio nem Hooley queria gravar a banda, e esse EPzinho foi totalmente ignorado até cair nas mãos do mestre John Peel. Peel ficou tão entusiasmado ao ouvi-lo que chegou a tocar duas vezes seguidas em seu programa na BBC Radio, algo que até então, nunca acontecera no seu programa.



Em seguida a Sire Records procurou o Undertones para contratá-los. A banda aceitou, mas queriam Terri Hooley como seu empresário. Hooley ficou honrado com o convite mas recusou e disse que não estava de saída de Belfast, pois queria continuar por lá ajudando as bandas da região. E o êxito musical do EP do Undertones impulsionou a Good Vibrations violentamente, que num espaço de dois anos lançou 15 compactos e dois álbuns.

O problema é que Terri Hooley era muito honesto com as bandas e não tinha senso comercial nenhum para o ramo, e não suportou uma das muitas crises econômicas de seu país. A Good Vibrations teve então que fechar as portas em 1980. Chegaram a lançar alguma coisa entre 1981 e 1982, mas com muito mais dificuldade do que no próprio início do selo. Ainda nos anos 90, com a volta do interesse pelo punk rock, o selo voltou a respirar, porém, mais uma vez não resistu à feorocidade do mercado e voltou a fechar. Em 2000, a Good Vibrations voltou à ativa e lançou dois discos: um CD-single do Twinkle e o álbum "Ooops" do Social Scum. A discografia do selo pode ser conferida aqui.

Apesar do legado relativamente curto, a Good Vibrations Records foi essencial para o surgimento e desenvolvimento do punk rock na Irlanda do Norte, tornando-se referência até hoje quando toca-se no assunto punk rock irlandês e punk rock 77 no geral.

Para conhecer um pouco do trabalho promovido pelo selo e os primórdios do punk rock irlandês, baixe aqui a coletânea "Good Vibrations - The Punk Singles Collection", com as faixas lançadas em compactos entre 1977 e 1980. Material de primeira!

Bad Music Sessions #2


Atenção! Segunda Bad Music Sessions já tem data marcada: dia 2 de novembro, dia dos mortos, e será uma noite dedicada ao peso! A festa vai ser novamente no Black Stone, PONTUALMENTE às 20h, com término às 00h, CHEGUEM CEDO PARA NÃO PERDER NADA! O ingresso é 10 reais e a ceva é 5. Teremos como atrações:

SHADE OF MANKIND - Audio violence


Retornando aos palcos com nova formação, a Shade of Mankind manda um som que o próprio líder Roderick Deimos gosta de chamar de "audio violence". Com influências de hardcore, crust, grind, death, black e tudo que há de mais podre e mais extremo na música, a banda que começou com uma one man band crust tosquíssima já chamou a atenção com o seu EP "Fallout", gravado inteiramente por Deimos em sua casa. Após muitas trocas de formação, a banda prepara seu debut, "We Are the Plague", agora mostrando um som muito mais trabalhado e com influências mais diversas, tudo bem extremo, claro. A banda não sobe ao palco faz um tempo e com certeza vai surpreender muito com sua nova formação, mandando um som único, extremo, odioso, raivoso e anti-tudo, para semear o caos, a miséria, a discórdia e cultuar o bode. Ouça a Shade of Mankind aqui.

MORTERIX - Metalpunk


Velhos conhecidos da senna, a Morterix já deu as caras aqui no blog, numa entrevista que fiz com o Rodrigo uns tempos atrás (confira aqui). Mandando um metalpunk cru, direto e agressivo, a banda estará lançando em formato físico seu primeiro disco, "The Roots of Ignorance". Pra quem curte Discharge, Motörhead, Exploited e Celtic Frost, uma ótima pedida. Uma das minhas bandas preferidas de Porto Alegre. Ouça aqui.

EXTR SICKS - Grindcore


Teremos também a estreia da Extr Sicks, em seu primeiro show! A banda lança um grindcore furioso cheio de influências de black metal. Som podre, pesado e agressivo, que vai fazer sair chorume dos amplificadores do Black Stone! Por enquando a banda só disponibilizou online alguns trechos de suas músicas, mas em breve estará lançando um EP. Ouça aqui.

Provavelmente esta será a última Bad Music Session do ano, já que a ideia é fazer um evento bimestral. De qualquer forma, contamos com sua presença para prestigiar as bandas independentes e cultuar o bode, e para que seja possível realizar outras Bad Music Sessions. Confirme sua presença no evento do facebook, e é claro, VÁ AO SHOW!

Twitching Tongues - Uma carta de amor ao som pesado noventista


Olá galera, mais uma vez desculpa pela falta de posts, mas estive ocupado com faculdade e outras questões pessoais, mas vamos voltar a falar da sessão de bandas que preparei para vocês. Dessa vez teremos uma parada mais "light" comparada ao que tenho postado ultimamente, mas ainda não deixa de te acertar em  cheio, com vocês: Twitching Tongues!


Formado em 2010 em Los Angeles, o quinteto conta com Colin Young nos vocais, Taylor Young na guitarra e voz, Leo Orozco na guitarra solo, Kyle Thomas no baixo e Michael Cesario na Bateria. Musicalmente a banda bebe de várias fontes, mas muito das influências deles vieram dos hardcore e metal noventista com um toque de hard rock, de nomes como Sam Black Church, Only Living Witness, Life of Agony e Type O Negative. Riffs arrastados, vocais cantados e coros com guturais secos e curtos, letras sobre amor e depressão, refrões chiclete e um apelo "hard rock" enrustido dominarão seus ouvidos na hora de apreciar esses caras.
 

Em 2011 lançaram seu primeiro EP, Insane & Inhumane, começando com uma balada que dá nome ao disco. O stoner  predomina mais nesse trabalho, e até um pouco de blues pode ser notado aqui, é como se misturassem o som do Down com os refrões do Carnivore. Além contar com um cover muito bem feito dos mestres doom metaleiros do Pentagram.


No mesmo ano debutaram com o full Sleep Therapy, já beirando para algo mais noventista, apelando pro hardcore mais arrastado típico dos grupos nova iorquinos do gênero, além de continuarem com a veia doom é possível ver mais influência dos grupos do Peter Steele e até um pouco de bandas do grunge como Soundgarden e Alice in Chains. Distance Clause  tem riffs com uma linhagem do John Christ (mítico guitarrista que gravou nos quatro primeiros e clássicos discos do Danzig). Porém a vibe bluezeira e stoner vai começar a sair mais adiante...


Aí em 2012 lançam o EP Preacher Man, com a balada homônima a obra, cujo clipe é uma carta de amor ao TON, para ficar mais 90's que aquilo, só faltou a banda estar de bandana e flanelas. Daí em 2013 chega o álbum que definiu sua identidade, talvez até mesmo o opus magnum deles: In Love There Is No Law.


Esse disco ataca de todos os lados, começando com Eyes Adjust com seu hardcore mosheiro lento e vai progredindo para  bumbos duplos, riffs marchados e até mesmo blast beats mais pro final. Seguido de uma faixa mais única que a outra, cada música é uma criatura por si só, passando por baladas de corações partidos (Departure e Frigid), Thrash/Crossovers sem dó (World War V, pois não deixaram claro o suficiente o quão fãs de Carnivore eles são) e até um Doom classudo que vira Hard Rock/Grunge que faria qualquer filhote da MTV noventista gozar nas calças (Good Luck).


Aqui deixamos o link para conferir o último disco deles, que disparado é um dos melhores discos deles e também está nos meus top 10 desse ano.